Natal: O que oferecia um finalista de Medicina a um caloiro do mesmo curso?

Editor Inspiring Future
9 maio 2019

A finalista Mafalda Borda D'Água escreve aqui um extensa carta mas de rápida leitura carta que pormenoriza bem aquilo que se passa na licenciatura de medicina! Não percas esta oportunidade para conhecer com alguém que viveu por dentro as idiossincrasias de um dos cursos mais exigentes em Portugal!

Parabéns, Caloiro(a)! Sê bem-vindo ao mundo maravilha da Medicina! Sim, convém, comtemplar-te, alegrar-te e motivar-te, caloiro. A medicina, aquele teu tão desejado curso, que te oferecia emprego certo e no qual conseguias ter um ótimo ordenado e uma vida mais que razoável, acabou. Mas não te preocupes, não és só tu… Eu também já estou tramada, portanto não desanimes (já). Muitos vão ter que emigrar (obrigada Passos Coelho), já que não vai haver espaço para todos, infelizmente (pode ser que seja desta que a “Maria” perceba, ou terei também que escrever uma carta aberta a alguém?).

Posto isto… Entretanto, chegas à faculdade, todo lampão – porque te achas o melhor do mundo, como todos nós já achámos –, e o primeiro discurso que vais ouvir (além dos gritos da praxe) é: “lá por seres o melhor da tua aldeia ou o melhor da tua escola, hoje os melhores estão aqui, todos juntos”. E, a partir daquele momento, apercebes-te que “já não vais ser o melhor”, que agora os teus 19 e 20 vão passar a 11 e 12, e que os teus pais vão ficar felizes apenas por não teres chumbado a esta ou aquela cadeira. Não é brutal? E a parte melhor ainda te espera… Não sei se é das cadeiras mais difíceis do nosso curso, mas é claramente aquela que mais nos assusta… a tão temida ANATOMIA! Vais-te sentir inútil e perdido no meio de tanta coisa para decorares! Mas pensa, se o Vasco Santana conseguiu, tu também vais conseguir e, nada está perdido (vai treinando: Es..ter..no..cleido…mas…toi…deu). Depois dessa, tantas outras vão atormentar-te a cabeça: farmacologia, fisiologia, genética, fisiopatologia, anatomia patológica, diversas especialidades, sei lá… tanta coisa que vais ter de saber, esquecer, voltar a saber e voltar a esquecer… e uma coisa é certa, no fim acaba tudo por correr bem (espero bem)!

Claro que nem tudo é mau em Medicina. Aliás, quero e, continuo a acreditar, que sou uma privilegiada por estar em Medicina. Já viste? É fascinante (e assustador) o poder que iremos ter nas mãos de compreender e de tratar as pessoas, de as poderes e tentares ajudar. E é importante que te foques nisso. Que nunca te esqueças do teu sonho e do porquê de te teres esforçado tanto para agora poderes estar em Medicina.

Não fiques já assustado! Aproveita os vários anos que te esperam. Aproveita para saíres à noite, para te divertires muito, para estares com os teus amigos e familiares, para ires a congressos e palestras, para viajares, para fazeres desporto, para fazeres um ou dois intercâmbios, para fazeres Erasmus, para fazeres tudo. Não deixes de fazer nada. Se conseguires conciliar bem, terás tempo para tudo. Ah! Faz amigos durante o curso, este não se vai fazer sozinho. E, acredita que vais dar por ti, e, que, de repente, já estás no 5º ano (como eu). O melhor disso tudo, é que te vais sentir tão médico como te sentes tu agora… zero médico! Mas vamos os dois acreditar que um dia iremos ser bons médicos, porque até nos esforçámos para isso!

Assim – além destes conselhos –, o que te poderia oferecer para te ajudar a ultrapassares (com distinção, claro) os próximos anos seria… muita paciência, humildade, alguma força, muita dedicação, algum empenho – fica sempre bem dizer tudo isto –, e, não menos importante todos estes presentinhos:

1) um despertador, para acordares depois duma noite bem passada na discoteca ou depois duma festa da faculdade;

2) uma bata nova, já que aquela de físico-química está toda riscada;

3) um estetoscópio, nem que seja para o estilo;

4) palitos ou muito café (como preferires, deixo-te escolher), para te manteres bem acordado naquelas noitadas (ou “manhãzadas”) em que te apetece fazer tudo, menos estudar;

5) o Harrison, já que podes querer começar já a estudar e um ano pode não chegar.

6) Emprego, ou melhor… retiro o que disse, esse fica para mim!

Bom natal, Caloiro!

Mafalda Borda D'Água, finalista em Medicina.