A Romantização dos Cursos: As séries e a realidade

Clara Almeida
Redatora com Futuro
18 Janeiro 2018

Quantas vezes estiveste sentado a ver uma série e pensaste: “Bem, esta personagem é tão badass, talvez um dia eu consiga ser como ela e fazer o que ela faz!”?

Muitas vezes? Poucas vezes? Nunca?

Seja qual for a resposta, este texto serve para refletir um pouco sobre um tópico que deveria ser discutido com uma maior frequência: A romantização dos cursos e consequentes profissões.

Vocês perguntam: “Romanti-quê?”

Eu passo a explicar:

Todos nós já ouvimos falar de séries como NCIS, CSI, Anatomia de Grey ou How To Get Away With Murder, Suits; isto é, séries que se focam em profissões como investigação criminal, médicos, advogados, etc. Séries que tornam impossível não ficarmos intrigados pelo que vemos: Muita gente é capaz de ficar interessada em seguir certos cursos por se sentirem “inspirados” pelo que vêm na televisão, mesmo que seja de forma inconsciente.

Infelizmente, é necessário alertar que este tipo de séries cria uma ideia muito superficial e irreal do que realmente é a investigação criminal, medicina, direito ou qualquer outro tipo de curso. Isto porque existe uma grande distorção da realidade a que todos estamos habituados a ver e a ouvir. Sem nos apercebermos, ficamos cegos para com a realidade que nos rodeia.

Para elucidar-vos um pouco mais, conto-vos um pequeno episódio:

Lembro-me da primeira vez que assisti a uma aula de seminário de integração do meu curso [Ciências Biomédicas Laboratoriais] e um colega meu perguntou: “Nós não estamos qualificados para fazer autópsias depois da licenciatura, pois não?” e o meu professor estupefacto respondeu: “Estão, sim. Eu já realizei uma, inclusive.”

Nós ficamos a olhar para ele com cara de parvos, pois pensávamos que as autópsias eram procedimentos restritos para médicos legistas. Ele riu e disse: “Pois, vocês estão presos no pensamento romantizado que existe acerca dos cursos e das profissões.”

Com isto, quero que entendam que é muito fácil tomarmos como verdade coisas que podem ser falsas, porque a maioria das vezes acreditamos de olhos fechados no que nos é dito e no que vemos. Isto, em certas circunstâncias, pode ser um tiro alheio, mas em outras, pode ser um que te saia pela culatra.  

Portanto, não tomem como certo o que tudo vêm nas séries. Elas são feitas e formatadas para atrair espectadores, logo estão cheias de drama, exageros e distorções. Temos o exemplo dado pela Filipa Loureiro, licenciada em Ciências Forenses e Criminais, ao reconhecer três erros evidentes nas séries que retratavam a sua área, como CSI:

“Eu diria que três aspetos da série que definitivamente divergem da realidade são: a rapidez dos processos (em relação aos resultados laboratoriais), a sobreposição de tarefas, na medida em que as personagens tanto estavam envolvidas na recolha de evidências, como na entrevista de suspeitos, como nas diferentes componentes laboratoriais, e a facilidade de resolver problemas - encontram alguma substância desconhecida e, ao fim de 5 segundos, já o aparelho sabia identificar tanto a substância como de onde tinha vindo, etc etc.”

Não quero que fiquem com a ideia de que é errado estarmos interessados numa área porque vimos a série X ou Y, mas acho importante que não tomem a decisão do que querem seguir só por esse fator. É meio caminho andado para a desilusão.

Procurem pessoal que esteja no curso que vocês queiram seguir ou que esteja mesmo a trabalhar na área que vos interessa. Fiquem atentos às datas dos dias abertos ou marquem uma visita guiada num estabelecimento que tenha o vosso curso. Talvez consigam falar com o diretor ou alunos do mesmo.

Seja como for, façam perguntas e tirem todas as vossas dúvidas em fontes credíveis e seguras.

Não se deixem iludir e mantenham-se informados! E quanto às séries? Deixem que elas sejam apenas para os vossos momentos de lazer.


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